- Talvez minha pior qualidade seja ter um coração bom, um coração que se deixa ser usado, machucado, abusado e continua se ferindo. Deve ser fraqueza, fraqueza em ser forte por mais de um, senão por todos. Força? É mais uma palavra de sentido múltiplo... Se força fosse algo só, eu não sofreria tanto.
Sabe, ser bom nunca foi tão ruim, é assustador querer o melhor para alguém sem saber se é recíproco. Não que reciprocidade seja meu desejo, não peço nada em troca, meu esforço é individual e contínuo, sem cobranças, porém, tentarão sugar você. Sugar... Verbo horroroso, no entanto, é meu verbo enlaçado num outro alguém tentando tirar meu eu de mim. Estranho, não é mesmo?
Mais estranho seria se as pessoas aceitassem bondade sem querer tomá-la para si. Nosso mundo é egoísta, querer o bem de todos só fará todos quererem você fazendo o bem para eles, individualmente.
Sabe, nascer de novo seria meu último pedido, mesmo que nascer signifique abandonar aquilo que fui no passado, sem pensar nas consequências do futuro e sequer tornar-me o que sou hoje.
E quantas vezes não quis voar, até que a realidade de outro me puxasse para o chão? Os outros, [tantos outros]...
E por que insisto em vestir esta máscara de ser forte, se no fundo todos sabem que serei fraca? Fraca para render-me aos corações aflitos e tomar a aflição para mim.
Pois então... Eles foram felizes, apodrecendo meu coração. E nunca aprenderão como sorrir sem precisar me ver chorar.
Entretanto... Foram lágrimas tão bonitas.
Comovente, minha alegria é comovente! Senão, de que adiantaria sofrer para ser feliz?
Felicidade... É tão fácil, é de graça, é linda, e eles tentam capitalizá-la. Sou feliz em servir, sou feliz em chorar, sou eternamente graça por tirar o sofrimento dos outros e sentir este sofrimento em mim.
Sabe, é coisa de nascença, veio no sangue e sangue ninguém tira.
O anjo olhava desorientado, devia ser tontura, estávamos num lugar muito alto, e pisávamos próximos à um precipício, abaixo seriam ruínas, dor, desespero, um passo em falso... Tudo acabaria. Ele pegou minha mão, estendeu suas asas formosas e suaves. Tudo me foi tão lindo... Meus olhos cheios de brilho. Porém, soltei da mão dele.
- Suas asas são maravilhosas, espero um dia tê-las comigo. Seria tão equivocado me levar contigo, como um anjo olha acima de alguém, se este alguém está na mesma altura? Seu olhar deve ser profundo, profundo como a ruína de ser humano.
Ele tentou me segurar, mas era tarde, dei um passo para trás e cai... O buraco era tão grande que a queda era suave, vi meu anjo por alguns segundos observando-me afundar, depois... Sobrou eu e a queda. E pensava comigo:
"O tamanho da ruína deve ser o tamanho dos problemas do homem, se bem que não existe homem sem problemas... Tamanha ruína não cabe à mim tapar, mas poderei eu cobrir um pouco desta profundidade? Só sei que nasci para ajudar e saber ser ajudado, por acaso surgem obstáculos que tornam o ajudar algo mais complexo. Será que serei sugado? Se bem que todos somos naturalmente por esta ruína. Pode-se concluir que ninguém suga ninguém, apenas busca tranquilidade na paz de outro, e ainda assim, não me soa bem. Paz... Palavra múltipla. Detesto palavras múltiplas, talvez eu deva parar de falar então... Tudo é múltiplo quando se encara pessoas diferentes. E minha face é múltipla sendo uma só, no fim, dá no mesmo, toda face termina em crânio, é tudo igual, brincando de ser diferente... É o múltiplo se limitando em ser zero. E esta queda não acaba nunca... O vento contra meu corpo, zunindo e incomodando, parece a respiração de algo ruim e não serei eu que vou tirar-lhe o fôlego. Meu pretexto é dar fôlego aos afogados, aos humanos afogados, mesmo que dividir meu oxigênio seja o mesmo que suicídio."
Atingi o chão, sentia meus ossos fraquejados pela dor da queda. Ao levantar, notei que a ruína continuava a mesma merda, cheia de gente mal resolvida com a vida, cheia de pessoas querendo consolação...
"Será que um dia, elas escaparão daqui e chegarão onde eu estava minutos atrás? Capaz que pulem para cá novamente, achar um lugar bom assusta porque parece um lugar inalcançável. Então, eu também tive medo? Pois é, tive medo. Medo de largar este mundo sem cumprir minha missão, eu tive que voltar, é cedo, muito cedo."
"Agora entendo porque gosto das asas do meu anjo...
Sei que o único jeito de sair daqui, é um dia conquistando elas."
Bianca Maegi
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