Senhor Pessoa, como conseguiu?
Ensine-me como fingir ser, sem ser completamente.
Como vencer o heterônimo que vira pessoa?
[Hein, senhor Pessoa?]
Leve consigo à Portugal, este alguém que toma posse de mim.
Eu imploro como quem faz oração.
[Quase perdendo a fé]
Você pode escutar? Eis que respiro em silêncio, enquanto meu eu grita por dentro.
Onde será que ele foi preso?
[Hein, senhor Pessoa?]
Você diz que enquanto eu não aprender o significado da confiança,
Enquanto eu não aprender o sentido da vida,
Enquanto eu não deitar-me pela noite e deixar a lua puxar-me da cama,
Enquanto, enquanto, enquanto....
A solidão corroer, a dor de não ser, a religião desaprender.
Desaprender que poeta não reza, poeta escreve.
Poeta é proeza, é luz na clareza,
É fogo no breu, pessoa que se perdeu.
[E no fim ser achada]
E mesmo aprendendo tudo isso, saber que ainda é muito pouco para prever o que está por vir.
Senhor Pessoa, enterra em Portugal esta pessoa me puxando.
Ela tapa meus ouvidos e não escuto o senhor.
Parece que o B. voltou mais forte e desta vez consegue me matar.
Nenhum M. vai aguentar, tamanha destruição.
E sem saber qual é minha pessoa, eu te pergunto como poetizar sem perder o rumo das coisas.
[Hein, senhor Pessoa?]
Bianca Maegi