domingo, 13 de novembro de 2011

De Heterônimo Para Heterônimo

Senhor Pessoa, como conseguiu?
Ensine-me como fingir ser, sem ser completamente.
Como vencer o heterônimo que vira pessoa?
[Hein, senhor Pessoa?]

Leve consigo à Portugal, este alguém que toma posse de mim.
Eu imploro como quem faz oração.
[Quase perdendo a fé]

Você pode escutar? Eis que respiro em silêncio, enquanto meu eu grita por dentro.
Onde será que ele foi preso?
[Hein, senhor Pessoa?]

Você diz que enquanto eu não aprender o significado da confiança,
Enquanto eu não aprender o sentido da vida,
Enquanto eu não deitar-me pela noite e deixar a lua puxar-me da cama,
Enquanto, enquanto, enquanto....

A solidão corroer, a dor de não ser, a religião desaprender.
Desaprender que poeta não reza, poeta escreve.
Poeta é proeza, é luz na clareza,
É fogo no breu, pessoa que se perdeu.
[E no fim ser achada]

E mesmo aprendendo tudo isso, saber que ainda é muito pouco para prever o que está por vir.
Senhor Pessoa, enterra em Portugal esta pessoa me puxando.
Ela tapa meus ouvidos e não escuto o senhor.
Parece que o B. voltou mais forte e desta vez consegue me matar.
Nenhum M. vai aguentar, tamanha destruição.
E sem saber qual é minha pessoa, eu te pergunto como poetizar sem perder o rumo das coisas.

[Hein, senhor Pessoa?]

Bianca Maegi

Fernando Pessoa Estava Certo

"Calma, vai passar..."

Foi o que disseram quando perdi a noção do espaço, a noção do tempo.
Quando a impaciência me atingiu no peito e desacordou meu eu.
Como diria Fernando Pessoa: "Quando fui outro..."

Este meu outro matando o eu verdadeiro.
[Para sempre]
As palavras ficavam confusas, enquanto a vida fazia sentido.
E percebi que eu tinha tudo, amando incondicionalmente nos dias obscuros, folheando as páginas da amargura, que tiravam de mim os melhores sorrisos.
[Sinto falta]
Quero meu eu de volta, enquanto o outro continua a me destruir.
Se soubesse que experimentar levaria a perdição...
Antes nunca ter experimentado.
Talvez minha filosofia de vida tenha falhado, e como quem quer voltar atrás...
Continua sendo empurrado para frente.
Procurar a morte parece trágico.
[Mas como matar aquele que já está morto?]
Promessas equivocadas, promessas desnecessárias.
Eu era muito nova e quis ser adulta.
Eu era o fogo que virou cinzas.
E nenhuma fênix vai reanimar.

Fui a negação tentando ser aceita.
[Porém, ganhar um "sim" nem sempre é agradável]

"Calma, vai passar..."

É questão de tempo pro teu eu virar outro, e quando for outro... Tudo passou.

[Eles não sabem, quando fui outro, perdi o gosto pelos versos]

Bianca Maegi